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5 de jul. de 2010

'Um bicho que não dá para prever é a zebra'

Francisco Louzada-Neto - O Estado de S.Paulo

Pesquisadores do Centro de Estudos do Risco do Departamento de Estatística (DEs) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) desenvolveram um modelo estatístico para a previsão dos jogos da Copa do Mundo que, na primeira fase, acertou 52% dos resultados e, na segunda, 75% até agora.

O modelo (disponível em copa2010.ufscar.br) é atualizado a cada rodada, levando em conta o rendimento das equipes nas partidas anteriores, o ranking da Fifa e opiniões de jornalistas esportivos. Ainda assim, não há como prever as peripécias de Felipe Melo, os surtos de cegueira dos árbitros ou os apagões criativos de certas equipes, avisa o coordenador Francisco Louzada-Neto. Ele conversou com o Estado sobre a ciência de tentar prever o futebol.

Futebol também é ciência? No sentido de que os acontecimentos dentro de campo obedecem a determinados padrões e seus resultados podem, portanto, ser previstos matematicamente?

O futebol tem sido uma área de aplicação de várias ciências como Fisiologia, Educação Física, Fisioterapia, Medicina Esportiva e mais recentemente, Matemática e Estatística. Então, sim, futebol também é ciência. O importante é utilizar os resultados probabilísticos antes da ocorrência de um determinado fenômeno. Não é por que sabemos que uma seleção tem uma chance muito maior de vencer que devemos nos descuidar. Devemos utilizar a estatística em uma concepção de gestão de risco. Algo que, com certeza, a seleção brasileira não fez.

O modelo que o senhor desenvolveu é atualizado a cada rodada, levando em conta o rendimento das equipes nas partidas anteriores. Se as previsões fossem feitas antes do início da Copa e mantidas inalteradas até o final, qual seria o índice de acerto? Muito mais baixo, imagino?

Sempre existe, em torno das previsões, uma nuvem de variação. Entretanto, das sete seleções que foram previstas nas sete primeiras posições antes do início do torneio, em termo se chances de conquistar o título, cinco chegaram às quartas de final. Ou seja, um acerto aproximado de 72%. Estas cinco seleções ? Argentina, Alemanha, Brasil, Espanha e Holanda ? juntas, antes do início da Copa, tinham 57% de chance de se sagrarem campeãs.

A eliminação de Itália e França poderia ser prevista antes do início da Copa, com base apenas em estatísticas? E a derrota da Alemanha para a Sérvia, por 1 a 0, depois de ter ganho por 4 a 0 da Austrália no jogo de estreia?

Para o grupo da França, nosso modelo já previa que México e Uruguai tinham as maiores chances de classificação. Já a desclassificação da Itália foi, realmente, inesperada. Quanto à derrota da Alemanha para a Sérvia, um bicho que o modelo não consegue prever é a zebra!

Até que ponto o senhor diria que o futebol é um esporte previsível ou imprevisível, comparado a outros esportes?

Acho que a variabilidade nos dados esportivos é muito grande, mesmo, e isso faz do esporte uma paixão. Todos os esportes estão sujeitos à imprevisibilidade, devido a vários fatores que não conseguimos controlar. Dentre eles: condição de saúde do jogador, o entrosamento do time, erros de arbitragem e assim por diante. No entanto, na minha opinião, resultados inesperados são mais frequentes no futebol do que em outros esportes, tais como o vôlei, o basquete e até o futsal. Nosso modelo desafia essa imprevisibilidade modificando as chances de vitória, empate ou derrota para valores diferentes da equiprobabilidade (1/3 para cada resultado), aumentando ou diminuindo as chances de uma seleção em detrimento de outra.

A adoção de tecnologias para evitar erros de arbitragem tornaria o esporte mais previsível?

Tudo evolui, então por que não incluir tecnologia no futebol? Mais um fator que poderia passar da situação de incontrolável para controlável.

O que o modelo prevê para a final da Copa?

Concluídas as partidas das quartas de final, realizamos 10 mil simulações de torneios e concluímos que as chances para as quatro finais possíveis são: Alemanha x Holanda (43%), Uruguai x Alemanha (23%), Holanda x Espanha (23%) e Uruguai x Espanha (11%).

Qual era a previsão para Brasil e Holanda antes do jogo?

A chance de vitória do Brasil era de 51,5%, contra 24% de empate e 24,5% de derrota. Apesar de toda a ciência, porém, não incluímos no modelo os fatores "trombada de goleiro com volante" e "pisão na coxa", que foram decisivos para o placar final do jogo. / H.E.



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