por Luís Augusto Símon e Ubiratan Leal, da revista ESPN
EM uma hora de conversa com a ESPN, Hortência de Fátima Marcari falou dez vezes a palavra “planejamento” e seis vezes “gestão”. “Cesta”? Apenas duas. Uma para contar a sua rotina de treinamento como jogadora e outra para mostrar como é “facinho e sem segredo” arremessar bem. A opção é clara. Não há dúvida de que ela está totalmente voltada às suas obrigações como diretora de basquete feminino da CBB. Sim, o sucesso do basquete brasileiro está novamente em suas mãos. As mesmas mãos que só descansavam depois de acertar mil arremessos, 500 de manhã e outros 500 à tarde. Agora, longe das quadras e daquela corte esplendorosa – Paula, Janeth e Alessandra – que lhe dava sustentação, ela luta para que sua grande paixão volte a ser respeitada e admirada pelos brasileiros.
A tarefa é dura. O sucesso pode muito bem ser tratado como ressurreição. Depois de um quarto lugar no Mundial de São Paulo em 2006, a Seleção foi 11ª nos Jogos Olímpicos de Pequim. Superou apenas Máli. Mas ela, medalha de ouro no Mundial de 94 e de prata na Olimpíada de 1996, se diz pronta para encarar o desafio. Desde que assumiu, mostrou que não é como a rainha da Inglaterra, que reina, mas não governa. Não a Rainha Hortência. Ela quer o poder. Exercer o poder foi o que exigiu ao aceitar o convite de Carlos Nunes, presidente da CBB, eleito em maio do ano passado.
– Não ia dar a minha cara para bater à toa. Foi o que expliquei quando fui convidada. É o meu nome que está ali. E nunca fui de fugir de responsabilidade – diz, na varanda de seu apartamento, nos Jardins, em São Paulo. Um lindo apartamento. Único no andar, amplo e com decoração impessoal. Em uma das mesas, sem nenhum aparato, está o troféu que recebeu por sua entrada no Hall da Fama do basquete. É uma das poucas coisas que mostram que ali está a maior jogadora da história do basquete brasileiro. Livros, muitos livros. Alguns de marketing – como As Mulheres que Abrem Passagem e 50 Mandamentos de Marketing –, tema que se transformou em companheiro na empreitada. “Foi uma das matérias que estudei na faculdade. Só fiz o que me interessava, o que achei que me ajudaria a ser uma dirigente”, diz.
Em sua estreia como cartola, teve de arbitrar a questão entre o técnico Paulo Bassul e a estrela Iziane. Hortência foi acusada de passar a mão na cabeça da rebelde e punir o treinador que buscava manter a disciplina. Durante o Pré-Olímpico de 2008, em Madri, Bassul mandou Iziane deixar o banco e entrar na quadra. Ela se recusou. Depois, disse que uma jogadora de seu nível tem de jogar sempre. Bassul nunca mais a convocou. Mesmo que o fizesse, Iziane não aceitaria.
Bassul foi demitido, o espanhol Carlos Colinas, contratado e Iziane voltou. A Rainha desmente a relação entre a saída de um para o retorno da outra. “O Bassul não saiu por causa disso. Não ficaria mesmo, era hora de mudar. Eu disse que os técnicos brasileiros não se atualizam. Me criticaram muito, mas nunca fui procurada por algum deles para ajudar em algum curso fora do Brasil”, afirma. Definida a saída de Bassul, a volta de Iziane só foi concretizada após uma longa conversa de uma hora e meia. “Ela chorou o tempo todo. Disse que gosta da Seleção e mostrou o seu lado na história. Toda história tem dois lados e posso dizer que aquela briga não foi a primeira. A situação entre eles era ruim desde as seleções de base.”
Mas como um símbolo do basquete brasileiro pode estar ao lado de quem abandonou a Seleção? Ao justificar sua decisão, conta algo inédito. “No Mundial de 86, eu também pedi para sair. Foi em Minsk, na antiga União Soviética [atual Belarus]. No intervalo de um jogo, disse para a Maria Helena [Cardoso, ex-técnica da Seleção] que não estava contente e que me dessem uma passagem de volta para o Brasil. Depois conversamos e eu fiquei.”
Hortência não é saudosista. Sabe que o tempo passou e as relações entre dirigentes e jogadores mudou, principalmente pela explosão da NBA e WNBA. É preciso, e ela quer colocar em prática um relacionamento mais maleável. “Hoje, estamos lidando com ídolos conhecidos no mundo todo e que ganham muito dinheiro. O jogador tem comprometimento com a Seleção Brasileira, mas a CBB tem de dar condições. Como você vai tirar um cara da NBA e fazer com que ele treine em quadras no Brasil que nem banheiro tem? É muito errado você convocar um jogador sem dar um contrato e um bom seguro para ele.” Por isso, ela já foi à Europa para explicar seus planos aos jogadores. O técnico Carlos Colinas também. A ideia é apresentar o planejamento e conseguir o comprometimento das jogadoras.
Tudo isso foi conversado com Iziane. E Hortência jura que a volta dela não significa que a jogadora tenha se fortalecido politicamente, tenha se tornado uma intocável. “Isso não existe. Se o Colinas quiser cortar a Iziane amanhã, pode cortar. Ela sai e ele fica.” Simples assim. Olho no olho. E decisões rápidas.
Esse é o estilo defendido e praticado durante a entrevista. Na mesa, estão três celulares. Ela leva mais tempo para ver quem está ligando – está sem o óculos e pede a ajuda do repórter – do que para definir o que fazer. Janeth chama. Agora técnica da Seleção Sub-15, pede que Hortência consiga uma passagem de avião para Taimara, jogadora da Mangueira, no Rio, que precisa se apresentar no dia seguinte em São Paulo. Hortência liga para a CBB, explica o que quer e, 15 minutos depois, recebe nova ligação. Está tudo certo.
“É gestão, gente, não dá para perder tempo”, diz a Rainha, com o mesmo sotaque caipira de sempre. Ele se mantém, mas com a voz bem mais doce quando a ligação é do namorado, que está embarcando em um aeroporto. Hortência conversa um pouco e se despede com o tradicional “boa viagem, amor, aproveita, juízo, me liga, te amo”.
Volta a falar de planos. E Janeth, companheira de tantos anos, tem papel importante neles. “Ela só não vai ser a técnica do Brasil em 2016, na Olimpíada, se não quiser ou se der tudo errado. Meu plano é que ela vá subindo cada degrau com essas meninas do sub-15 que ela comanda. Quando elas forem sub-17, a Janeth sobe com elas. E assim vai, até chegar à principal. Muitas dessas meninas estarão lá, eu tenho certeza. Imagino que o time de 2016 vai ter quatro jogadoras do time atual – inclusive, acho que a Iziane pode ser uma delas –, mais quatro com 20 anos e outras quatro do sub-17”, explica.
Aos 41 anos, Janeth comemora mais o fato de haver planos do que de estar neles. “O que me dá muita alegria é saber que a Hortência está se dedicando muito ao basquete. Tem feito um planejamento para que tudo aconteça. E é lógico que estou mais feliz ainda por fazer parte dos planos.” A Rainha tem participado de muitas clínicas e visto jogos e mais jogos. Foi até Medellín, na Colômbia, ver a Seleção Sub-18, comandada por Émerson Tarallo, ganhar o Campeonato Sul-Americano. “Foi muito bom. A menor diferença a nosso favor foi de 14 pontos, na final contra a Argentina.”
Ao mesmo tempo em que busca um time forte para disputar o Mundial na República Tcheca, em setembro, Hortência sonha e luta para que haja uma liga forte no Brasil, como em sua época de atleta. “Nós tínhamos campeonatos fortes, vinha até jogadora dos Estados Unidos. A Valdemoro [Amaya Valdemoro, uma das principais jogadoras da Espanha] jogou aqui. E tinha rivalidade, tinha o meu time contra o time da Paula. Isso precisava voltar, com o time da Érica contra o time da Iziane, mas as meninas vão embora muito cedo. O Brunoro, responsável pelo marketing da CBB, está lutando para ter um campeonato forte.”
Um dos caminhos seria procurar os clubes de futebol, mesmo depois de problemas no início da década. “Se teve alguma coisa errada antes é porque faltou gestão. Os clubes de futebol podem trazer mais destaque para o basquete.” A primeira conversa foi com o Corinthians. Hortência, torcedora fanática do time, prometeu ajudar com orientações e ideias, mas não com dinheiro ou busca de patrocinadores. “Isso eu não posso fazer. Tenho de ser neutra. Mas não é difícil conseguir um bom time. Olha, para montar um grupo de ponta, com 12 jogadoras, você não precisa de mais do que R$ 100 mil por mês. É time para disputar título. Estourando, com outros gastos com transporte, alimentação, não se gasta mais do que R$ 1,5 milhão por ano.”
Outro alvo da nova dirigente é buscar clubes fora de São Paulo. E já vê um candidato. “O pessoal da Mangueira tem um trabalho social muito bom lá no Rio. Muitas jogadoras de nossas categorias de base estão saindo de lá. Seria ótimo se eles tivessem um time adulto.” Procurada pela ESPN, a direção do clube da comunidade carioca deu sinais positivos. Disse que eles precisam apenas de parceiros para o projeto.
Uma liga forte, com times fortes e com ídolos. Hortência sonha. Esse é um dos raros momentos em que a ex-jogadora aflora e um pouco de nostalgia toma conta do ambiente. “Era a Paula de um lado e eu do outro. As quadras lotavam, a imprensa cobria bastante, era a força do basquete. Só que a falta de gestão acabou com tudo e o vôlei ganhou espaço.” Vem então uma alfinetada no esporte rival. “Vocês podem escalar um time de vôlei atual? Citar um ídolo. É difícil, não é? O vôlei tem renovação e títulos, mas não tem ídolos. Isso, o basquete sempre teve e precisa voltar a ter.”
O trabalho está começando. Sempre olhando para a frente, sem pensar muito no passado, Hortência prevê um time forte, com ênfase na defesa e com banco sólido. “Eu e a Paula éramos boa, não éramos? E a gente só perdia, ficava em décimo. Só melhorou quando chegaram a Alessandra e a Janeth. Ninguém tinha jogadoras tão boas, mas tinham um banco forte e encaravam a gente. Agora, vamos partir para isso. Sem nenhum fenômeno, o coletivo agora é mais importante. O nós passou a ser mais importante do que o eu.”
Um primeiro passo já foi dado, por uma monarca que não abdica do trabalho. E do poder.
Basquete, o amor maior
Hortência chegou à Seleção adulta feminina de basquete em 1975, com 16 anos. Disputou duas Olimpíadas, cinco Mundiais e quatro Pan-Americanos. Foi campeã mundial em 1994, medalha de prata na Olimpíada de 1996 e, apesar dos treinos duros e das concentrações prolongadas, afirma enfaticamente que sua vida pessoal nunca foi afetada. “Tudo que atrapalhasse o basquete ficava para trás. Os namorados ficavam em quarto, quinto lugar, o primeiro era o meu esporte. Deixei muita gente esperando para eu treinar, mas posso garantir que, apesar de tudo, nunca fiquei sozinha.”
Quando esteve nas Olimpíadas de Barcelona, em 92, e de Atlanta, em 96, estava casada. Nos Estados Unidos, era mãe recente. Por isso, nunca teve namorado nos Jogos. Mas acha isso normal e saudável. “Em Olimpíada, é normal namorar muito. Testosterona a mil, dois meses fora de casa, ninguém consegue ficar sem sexo. E é bom, ajuda. Você olha na cara da menina e já vê a felicidade dela. Isso influencia na quadra, positivamente falando.”
Sexo é bom, ajuda, mas a procura por ele pode ser um problema. Hortência, com seu jeito franco, explica. “Não pode ficar procurando encontro em véspera de jogo e nem passar a madrugada trepando. Vai depois do almoço, não vai às 3 da manhã. Antigamente, as treinadoras não ficavam sabendo o que se fazia nos dias de folga. Como é que vai falar? ‘Deixa eu sair, dar uma rapidinha e voltar a treinar?’ Dia livre é dia livre, não precisa dar satisfação.”
Como dirigente, a liberalidade de Hortência depende da idade das jogadoras. “Quando as meninas são pequenas, mais novas, a gente não libera. Tem dia livre, mas é com a gente, do nosso lado. Quando é adulto, a gente libera. Mas tem que ter cuidado, não vai sair para a noitada. Faz de tarde e joga bem à noite, que é o que importa.”
EM uma hora de conversa com a ESPN, Hortência de Fátima Marcari falou dez vezes a palavra “planejamento” e seis vezes “gestão”. “Cesta”? Apenas duas. Uma para contar a sua rotina de treinamento como jogadora e outra para mostrar como é “facinho e sem segredo” arremessar bem. A opção é clara. Não há dúvida de que ela está totalmente voltada às suas obrigações como diretora de basquete feminino da CBB. Sim, o sucesso do basquete brasileiro está novamente em suas mãos. As mesmas mãos que só descansavam depois de acertar mil arremessos, 500 de manhã e outros 500 à tarde. Agora, longe das quadras e daquela corte esplendorosa – Paula, Janeth e Alessandra – que lhe dava sustentação, ela luta para que sua grande paixão volte a ser respeitada e admirada pelos brasileiros.
A tarefa é dura. O sucesso pode muito bem ser tratado como ressurreição. Depois de um quarto lugar no Mundial de São Paulo em 2006, a Seleção foi 11ª nos Jogos Olímpicos de Pequim. Superou apenas Máli. Mas ela, medalha de ouro no Mundial de 94 e de prata na Olimpíada de 1996, se diz pronta para encarar o desafio. Desde que assumiu, mostrou que não é como a rainha da Inglaterra, que reina, mas não governa. Não a Rainha Hortência. Ela quer o poder. Exercer o poder foi o que exigiu ao aceitar o convite de Carlos Nunes, presidente da CBB, eleito em maio do ano passado.
– Não ia dar a minha cara para bater à toa. Foi o que expliquei quando fui convidada. É o meu nome que está ali. E nunca fui de fugir de responsabilidade – diz, na varanda de seu apartamento, nos Jardins, em São Paulo. Um lindo apartamento. Único no andar, amplo e com decoração impessoal. Em uma das mesas, sem nenhum aparato, está o troféu que recebeu por sua entrada no Hall da Fama do basquete. É uma das poucas coisas que mostram que ali está a maior jogadora da história do basquete brasileiro. Livros, muitos livros. Alguns de marketing – como As Mulheres que Abrem Passagem e 50 Mandamentos de Marketing –, tema que se transformou em companheiro na empreitada. “Foi uma das matérias que estudei na faculdade. Só fiz o que me interessava, o que achei que me ajudaria a ser uma dirigente”, diz.
Em sua estreia como cartola, teve de arbitrar a questão entre o técnico Paulo Bassul e a estrela Iziane. Hortência foi acusada de passar a mão na cabeça da rebelde e punir o treinador que buscava manter a disciplina. Durante o Pré-Olímpico de 2008, em Madri, Bassul mandou Iziane deixar o banco e entrar na quadra. Ela se recusou. Depois, disse que uma jogadora de seu nível tem de jogar sempre. Bassul nunca mais a convocou. Mesmo que o fizesse, Iziane não aceitaria.
Bassul foi demitido, o espanhol Carlos Colinas, contratado e Iziane voltou. A Rainha desmente a relação entre a saída de um para o retorno da outra. “O Bassul não saiu por causa disso. Não ficaria mesmo, era hora de mudar. Eu disse que os técnicos brasileiros não se atualizam. Me criticaram muito, mas nunca fui procurada por algum deles para ajudar em algum curso fora do Brasil”, afirma. Definida a saída de Bassul, a volta de Iziane só foi concretizada após uma longa conversa de uma hora e meia. “Ela chorou o tempo todo. Disse que gosta da Seleção e mostrou o seu lado na história. Toda história tem dois lados e posso dizer que aquela briga não foi a primeira. A situação entre eles era ruim desde as seleções de base.”
Mas como um símbolo do basquete brasileiro pode estar ao lado de quem abandonou a Seleção? Ao justificar sua decisão, conta algo inédito. “No Mundial de 86, eu também pedi para sair. Foi em Minsk, na antiga União Soviética [atual Belarus]. No intervalo de um jogo, disse para a Maria Helena [Cardoso, ex-técnica da Seleção] que não estava contente e que me dessem uma passagem de volta para o Brasil. Depois conversamos e eu fiquei.”
Hortência não é saudosista. Sabe que o tempo passou e as relações entre dirigentes e jogadores mudou, principalmente pela explosão da NBA e WNBA. É preciso, e ela quer colocar em prática um relacionamento mais maleável. “Hoje, estamos lidando com ídolos conhecidos no mundo todo e que ganham muito dinheiro. O jogador tem comprometimento com a Seleção Brasileira, mas a CBB tem de dar condições. Como você vai tirar um cara da NBA e fazer com que ele treine em quadras no Brasil que nem banheiro tem? É muito errado você convocar um jogador sem dar um contrato e um bom seguro para ele.” Por isso, ela já foi à Europa para explicar seus planos aos jogadores. O técnico Carlos Colinas também. A ideia é apresentar o planejamento e conseguir o comprometimento das jogadoras.
Tudo isso foi conversado com Iziane. E Hortência jura que a volta dela não significa que a jogadora tenha se fortalecido politicamente, tenha se tornado uma intocável. “Isso não existe. Se o Colinas quiser cortar a Iziane amanhã, pode cortar. Ela sai e ele fica.” Simples assim. Olho no olho. E decisões rápidas.
Esse é o estilo defendido e praticado durante a entrevista. Na mesa, estão três celulares. Ela leva mais tempo para ver quem está ligando – está sem o óculos e pede a ajuda do repórter – do que para definir o que fazer. Janeth chama. Agora técnica da Seleção Sub-15, pede que Hortência consiga uma passagem de avião para Taimara, jogadora da Mangueira, no Rio, que precisa se apresentar no dia seguinte em São Paulo. Hortência liga para a CBB, explica o que quer e, 15 minutos depois, recebe nova ligação. Está tudo certo.
“É gestão, gente, não dá para perder tempo”, diz a Rainha, com o mesmo sotaque caipira de sempre. Ele se mantém, mas com a voz bem mais doce quando a ligação é do namorado, que está embarcando em um aeroporto. Hortência conversa um pouco e se despede com o tradicional “boa viagem, amor, aproveita, juízo, me liga, te amo”.
Volta a falar de planos. E Janeth, companheira de tantos anos, tem papel importante neles. “Ela só não vai ser a técnica do Brasil em 2016, na Olimpíada, se não quiser ou se der tudo errado. Meu plano é que ela vá subindo cada degrau com essas meninas do sub-15 que ela comanda. Quando elas forem sub-17, a Janeth sobe com elas. E assim vai, até chegar à principal. Muitas dessas meninas estarão lá, eu tenho certeza. Imagino que o time de 2016 vai ter quatro jogadoras do time atual – inclusive, acho que a Iziane pode ser uma delas –, mais quatro com 20 anos e outras quatro do sub-17”, explica.
Aos 41 anos, Janeth comemora mais o fato de haver planos do que de estar neles. “O que me dá muita alegria é saber que a Hortência está se dedicando muito ao basquete. Tem feito um planejamento para que tudo aconteça. E é lógico que estou mais feliz ainda por fazer parte dos planos.” A Rainha tem participado de muitas clínicas e visto jogos e mais jogos. Foi até Medellín, na Colômbia, ver a Seleção Sub-18, comandada por Émerson Tarallo, ganhar o Campeonato Sul-Americano. “Foi muito bom. A menor diferença a nosso favor foi de 14 pontos, na final contra a Argentina.”
Ao mesmo tempo em que busca um time forte para disputar o Mundial na República Tcheca, em setembro, Hortência sonha e luta para que haja uma liga forte no Brasil, como em sua época de atleta. “Nós tínhamos campeonatos fortes, vinha até jogadora dos Estados Unidos. A Valdemoro [Amaya Valdemoro, uma das principais jogadoras da Espanha] jogou aqui. E tinha rivalidade, tinha o meu time contra o time da Paula. Isso precisava voltar, com o time da Érica contra o time da Iziane, mas as meninas vão embora muito cedo. O Brunoro, responsável pelo marketing da CBB, está lutando para ter um campeonato forte.”
Um dos caminhos seria procurar os clubes de futebol, mesmo depois de problemas no início da década. “Se teve alguma coisa errada antes é porque faltou gestão. Os clubes de futebol podem trazer mais destaque para o basquete.” A primeira conversa foi com o Corinthians. Hortência, torcedora fanática do time, prometeu ajudar com orientações e ideias, mas não com dinheiro ou busca de patrocinadores. “Isso eu não posso fazer. Tenho de ser neutra. Mas não é difícil conseguir um bom time. Olha, para montar um grupo de ponta, com 12 jogadoras, você não precisa de mais do que R$ 100 mil por mês. É time para disputar título. Estourando, com outros gastos com transporte, alimentação, não se gasta mais do que R$ 1,5 milhão por ano.”
Outro alvo da nova dirigente é buscar clubes fora de São Paulo. E já vê um candidato. “O pessoal da Mangueira tem um trabalho social muito bom lá no Rio. Muitas jogadoras de nossas categorias de base estão saindo de lá. Seria ótimo se eles tivessem um time adulto.” Procurada pela ESPN, a direção do clube da comunidade carioca deu sinais positivos. Disse que eles precisam apenas de parceiros para o projeto.
Uma liga forte, com times fortes e com ídolos. Hortência sonha. Esse é um dos raros momentos em que a ex-jogadora aflora e um pouco de nostalgia toma conta do ambiente. “Era a Paula de um lado e eu do outro. As quadras lotavam, a imprensa cobria bastante, era a força do basquete. Só que a falta de gestão acabou com tudo e o vôlei ganhou espaço.” Vem então uma alfinetada no esporte rival. “Vocês podem escalar um time de vôlei atual? Citar um ídolo. É difícil, não é? O vôlei tem renovação e títulos, mas não tem ídolos. Isso, o basquete sempre teve e precisa voltar a ter.”
O trabalho está começando. Sempre olhando para a frente, sem pensar muito no passado, Hortência prevê um time forte, com ênfase na defesa e com banco sólido. “Eu e a Paula éramos boa, não éramos? E a gente só perdia, ficava em décimo. Só melhorou quando chegaram a Alessandra e a Janeth. Ninguém tinha jogadoras tão boas, mas tinham um banco forte e encaravam a gente. Agora, vamos partir para isso. Sem nenhum fenômeno, o coletivo agora é mais importante. O nós passou a ser mais importante do que o eu.”
Um primeiro passo já foi dado, por uma monarca que não abdica do trabalho. E do poder.
Basquete, o amor maior
Hortência chegou à Seleção adulta feminina de basquete em 1975, com 16 anos. Disputou duas Olimpíadas, cinco Mundiais e quatro Pan-Americanos. Foi campeã mundial em 1994, medalha de prata na Olimpíada de 1996 e, apesar dos treinos duros e das concentrações prolongadas, afirma enfaticamente que sua vida pessoal nunca foi afetada. “Tudo que atrapalhasse o basquete ficava para trás. Os namorados ficavam em quarto, quinto lugar, o primeiro era o meu esporte. Deixei muita gente esperando para eu treinar, mas posso garantir que, apesar de tudo, nunca fiquei sozinha.”
Quando esteve nas Olimpíadas de Barcelona, em 92, e de Atlanta, em 96, estava casada. Nos Estados Unidos, era mãe recente. Por isso, nunca teve namorado nos Jogos. Mas acha isso normal e saudável. “Em Olimpíada, é normal namorar muito. Testosterona a mil, dois meses fora de casa, ninguém consegue ficar sem sexo. E é bom, ajuda. Você olha na cara da menina e já vê a felicidade dela. Isso influencia na quadra, positivamente falando.”
Sexo é bom, ajuda, mas a procura por ele pode ser um problema. Hortência, com seu jeito franco, explica. “Não pode ficar procurando encontro em véspera de jogo e nem passar a madrugada trepando. Vai depois do almoço, não vai às 3 da manhã. Antigamente, as treinadoras não ficavam sabendo o que se fazia nos dias de folga. Como é que vai falar? ‘Deixa eu sair, dar uma rapidinha e voltar a treinar?’ Dia livre é dia livre, não precisa dar satisfação.”
Como dirigente, a liberalidade de Hortência depende da idade das jogadoras. “Quando as meninas são pequenas, mais novas, a gente não libera. Tem dia livre, mas é com a gente, do nosso lado. Quando é adulto, a gente libera. Mas tem que ter cuidado, não vai sair para a noitada. Faz de tarde e joga bem à noite, que é o que importa.”









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