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3 de ago. de 2009

A vez dos craques da gestão

No início do ano passado, quatro meses depois de o Brasil ser confirmado como sede da Copa do Mundo de 2014, a consultoria Deloitte montou uma equipe para se dedicar exclusivamente ao evento. Desde então, o grupo de 12 analistas e gerentes, baseado em São Paulo, trabalha a pleno vapor em projetos para cidades que se candidataram a receber as partidas do torneio, como Manaus, no Amazonas, e Cuiabá, no Mato Grosso. A previsão é que a equipe seja ampliada a partir do anúncio das cidadessede, em maio, e chegue a 180 pessoas até 2014. Conhecida por formar seus profissionais em casa, neste caso a Deloitte precisou buscar gente no mercado para conseguir reunir experiência administrativa e conhecimento do negócio. “Não tem sido uma tarefa fácil, pois há poucas pessoas que realmente entendem de gestão esportiva no país”, diz o paulistano Robson Calil Chaar, de 45 anos, sócio da Deloitte e responsável pelo projeto da copa. “Sem dúvida, existe um déficit de profissionais qualificados nessa área.”

O exemplo da Deloitte ilustra bem as oportunidades e os desafios que o mercado esportivo enfrenta hoje. O setor representa cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e sua participação está crescendo. Entre 1995 e 2005, o PIB do esporte aumentou 10,8% ao ano, bem acima dos 3,2% da economia, segundo pesquisa do instituto Ipsos Marplan em parceria com o canal SporTV. “Hoje, o esporte é a área que mais cresce e se desenvolve dentro da indústria de entretenimento no país”, diz Ronaldo Chataignier, coordenador do Núcleo de Estudos em Esportes da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro. A crise reduziu esse ritmo de crescimento, mas a realização de grandes eventos no país (Jogos Pan-Americanos de 2007, Copa do Mundo de 2014 e candidatura às Olimpíadas de 2016) promete impulsionar os investimentos e as oportunidades no mercado. “A pressão de investidores e de entidades esportivas internacionais vai acelerar a profissionalização do setor”, diz Ronaldo.

2 000 GESTORES ATÉ 2014

O pesquisador da FGV estima que, nos próximos cinco anos, o Brasil terá de formar cerca de 2 000 gestores para trabalhar em clubes, entidades, federações e empresas prestadoras de serviços e patrocinadoras do esporte. O Comitê Olímpico Brasileiro, por exemplo, criticado por falhas na organização do Pan do Rio, em 2007, vai oferecer neste ano um curso de especialização em administração para 35 diretores e gerentes de confederações esportivas, em parceria com a Universidade Estadual do Rio de Janeiro. A gestão profi ssional promete chegar também aos estádios Com a reformulação desses espaços para que se adaptem às exigências da Fifa para a Copa, surge a fi gura do gestor de arenas esportivas, capaz de fazer dessa estrutura um negócio autossufi ciente e até lucrativo. Na Europa, as arenas são responsáveis por até 35% da receita de grandes clubes, como Manchester United, da Inglaterra, e Milan, da Itália. No Brasil, esse percentual gira em torno de 10%.

Enquanto o amadorismo ainda resiste por aqui, as melhores oportunidades de carreira estão em agências de marketing esportivo e nos departamentos especializados de companhias que patrocinam o esporte. Os salários na área, em geral, estão abaixo da média de mercado, segundo a Michael Page, de São Paulo, que recrutou dez profi ssionais no primeiro trimestre deste ano. “A remuneração varia bastante no setor. Um gerente médio pode ganhar de 6 000 a 12 000 reais”, diz Carlos Autona, diretor da consultoria. Mas isso não desanimou o administrador de empresas Carlos Eduardo Caruzo, de 36 anos. Apaixonado por esportes, ele trocou o cargo de gerente sênior da consultoria americana A.T. Kearney para se tornar um empreendedor nesse mercado. Fez uma especialização internacional na área e, em 2004, ao lado de dois colegas, fundou a Golden Goal, consultoria de gestão esportiva, no Rio de Janeiro. A empresa já realizou projetos para diversos clubes cariocas e hoje, com uma equipe de 20 pessoas, é responsável no Brasil pelas ações de marketing do clube italiano Milan, administra camarotes nos estádios do Maracanã e Engenhão, ambos no Rio, e gerencia a carreira de ex-atletas, como Leonardo. “Essa é uma indústria que tem tudo por fazer. Por isso, há grandes oportunidades para quem gosta de desafi os”, diz Carlos.

ESPECIALIZAÇÃO EM ALTA

O gosto pelo esporte é importante para quem quer se tornar um gestor na área, mas não é o suficiente. Já se foi o tempo em que bastava a trajetória esportiva de sucesso para credenciar um ex-atleta a um cargo executivo. Para isso, hoje é fundamental ter uma boa base em finanças, contabilidade, recursos humanos, planejamento e marketing. Conhecimentos sobre organização de eventos, mecanismos de patrocínio e legislação do setor também são desejáveis. “O gestor esportivo tem que ter boa formação acadêmica, paixão pelo esporte e flexibilidade, pois esse mercado muda constantemente”, diz o ex-jogador de futebol argentino Jorge Valdano, diretor da Escola de Estudos Universitários do Real Madrid, na Espanha.

Hoje já existem no Brasil cursos de pós-graduação e MBAs em gestão e marketing esportivo, oferecidos por instituições de ensino respeitadas, como FGV (do Rio), Escola Superior de Propaganda e Marketing e Universidade Anhembi-Morumbi (lançado neste ano), ambas em São Paulo. Seus alunos adquirem conhecimentos em temas cada vez mais valorizados no mercado, como liderança e comunicação, direito esportivo, tecnologia da informação e gestão de eventos e arenas. A Traffic, uma das líderes no país em marketing esportivo e venda de direitos de televisão, contratou nos últimos três anos 50 profissionais, incluindo sete gestores, para a área de negócios de futebol. Formado em Direito e pós-graduado em administração, o paulistano Rafael Botelho, de 28 anos, assumiu no ano passado a área jurídica. Rafael trabalhou em grandes escritórios e ajudou a estruturar a área de direito esportivo de um deles. “Procuramos gente jovem, que realmente se preparou para esse negócio”, diz Felipe Lobo Faro, diretor da Traffic. De cada dez currículos que ele recebe, sete contêm alguma especialização concluída ou em curso na área esportiva.

No mês passado, a empresa inaugurou, no interior de São Paulo, um centro de treinamento para abrigar seu clube-empresa, o Desportivo Brasil, e formar jogadores. O engenheiro paulista Rodolfo Canavesi, de 32 anos, foi o escolhido para administrar o novo centro. Rodolfo trabalhou em grandes consultorias de negócios, como Ernst & Young, antes de optar pela carreira na área esportiva. Em 2007, cursou o Fifa Master — MBA internacional coordenado pela entidade maior do futebol mundial — e, na volta ao Brasil, foi contratado para a gerência financeira da Traffic. Na época, aceitou um salário menor do que recebia no emprego anterior. Mas, em menos de um ano, ele foi promovido à superintendência de um projeto estratégico da empresa, com um aumento de 80%. “Minha qualificação abriu as portas de um mercado que valoriza cada vez mais quem se especializa”, diz Rodolfo Canavesi.

UM MERCADO EM EXPANSÃO

Em média, o PIB do esporte cresceu 10,8% ao ano ante os 3,2% ao ano do país, de 1995 a 2005. (Fonte: Instituto Ipsos Marplan e canal SporTV)

“O esporte é a área que mais se desenvolve dentro da indústria de entretenimento”, diz Ronaldo Chataignier, da FGV-RJ.

A demanda das empresas esportivas para os próximos cinco anos é de 2 000 gestores.(Fonte: Núcleo de Estudos em Esportes FGV-RJ)

As oportunidades de carreira estão nas agências de marketing esportivo e nas empresas patrocinadoras.

Um gerente médio ganha de 6 000 a 12 000 reais.(Fonte: Michael Page)

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