Relatório denuncia salários baixos, horas extras forçadas e
restrições à liberdade sindical em fábricas chinesas, filipinas e cingalesas
que produzem para os Jogos Olímpicos de Londres
São Paulo – Entidades do sindicalismo
internacional e organizações não-governamentais publicam hoje (7) um relatório
denunciando desrespeitos aos direitos humanos, trabalhistas e sindicais na
cadeia produtiva de empresas que fornecerão artigos esportivos para os Jogos
Olímpicos de Londres. O texto também faz recomendações para que os mesmos
abusos não se repitam no Rio de Janeiro em 2016.
O documento foi elaborado a partir de
175 entrevistas com trabalhadores de dez fábricas instaladas na
China, Filipinas e Sri Lanka. Oito delas está produzindo para abastecer a
Olimpíada de 2012 sob licença de marcas como Adidas, New Balance, The
North Face, Nike e Speedo, entre outras, cujas etiquetas luzirão nos uniformes
esportivos utilizados na capital inglesa a partir de 27 de julho.
Trabalho precário, baixíssimos
salários, horas extras forçadas, restrições à liberdade sindical e condições
insalubres foram detectadas pela pesquisa, conduzida pelos colaboradores locais
da campanha Play Fair (Jogue Limpo), iniciativa global que combate a
exploração de quem trabalha na cadeia produtiva dos grandes eventos esportivos.
“As fábricas foram
escolhidas ao acaso, pois não estávamos caçando empresas más”, disse Ashling
Sheely, da Federação Internacional de Trabalhadores de Têxteis, Vestimentas e
Couro (ITGLWF), uma das entidades envolvidas na pesquisa. “Mas descobrimos que
nenhuma fábrica paga sequer o salário mínimo a seus trabalhadores. Nenhuma
possuía sindicatos, embora tenham tentado organizar-se no passado. A maioria
dos empregadores se utiliza de trabalho precário para fugir das obrigações
trabalhistas.”
Competição sustentável
Ashling explica que a campanha Play
Fair resolveu monitorar as condições de trabalho nos países asiáticos
principalmente porque o Comitê Organizador de Londres 2012 propagandeia
que realizará os Jogos Olímpicos mais sustentáveis da história. De fato, as
autoridades londrinas submeteram-se a um código de ética inédito, que previa
respeito integral ao meio ambiente e aos direitos humanos e trabalhistas
durante a produção dos Jogos. Esse, aliás, foi um dos motivos que pesaram na
escolha de Londres para sediá-los.
“Porém, o Comitê falhou em
conscientizar os trabalhadores sobre seus direitos na maioria dos países que
produzem para os Jogos”, critica Ashling. “Apenas quando fizemos as primeiras
denúncias, em fevereiro, é que decidiram treinar os trabalhadores — mas apenas
no Reino Unido e na China. No Sri Lanka e nas Filipinas, eles simplesmente não
conheciam seus direitos. Portanto, não podem exigir que sejam respeitados. Até
porque os sindicatos não estão permitidos.”
A campanha Play Fair exige que os
trabalhadores envolvidos na cadeia produtiva dos Jogos Olímpicos devem receber
salários dignos e exercer suas funções em ambientes que respeitem integralmente
seus direitos. “Queremos que os mesmos ideais olímpicos de ética e respeito se
apliquem aos trabalhadores”, esclarece Ashling. “Convocamos as marcas
mencionadas no relatório — Adidas, Nike, Speedo, New Balance — a dialogar com os
sindicatos e combater as violações.”
De olho no Rio
Para que os abusos não se repitam na
próxima Olimpíada, que ocorrerá no Brasil, a campanha Play Fair elaborou
algumas recomendações ao Comitê Organizador do Rio 2016. ONGs e sindicatos
internacionais esperam que as autoridades brasileiras usem sua influência sobre
as empresas nacionais e estrangeiras para que observem os direitos dos
trabalhadores e exijam a divulgação dos locais de produção, dentro e fora do
país, como condição contratual de patrocínio, licenciamento e comercialização.
“Junto com as centrais
sindicais, vamos apresentar esses estudos ao Comitê Organizador do Rio
2016 e às autoridades brasileiras para exigir respostas e medidas do país e
evitar, assim, que novos abusos aconteçam”, anuncia Ramon Szermeta, coordenador
da campanha Play Fair no Brasil. “A maioria dos abusos se relaciona com as
restrições impostas pelas fábrica à atuação sindical nos locais de produção.
Queremos nos antecipar a estes problemas, até porque o histórico do Brasil no
setor têxtil é desfavorável, com exploração de imigrantes e casos de
trabalho forçado.”
Szermeta destaca,
porém, que o monitoramento dos sindicatos ainda se atém às empresas que
produzem oficialmente para os megaeventos. “São as que têm mais visibilidade”,
admite. “Porém, existe uma cadeia não oficial imensa, e aqui o desafio de
garantir o respeito aos direitos trabalhistas é ainda maior.”










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